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cisão de projeto

O campo do conhecimento arquitetônico envolve certas dificuldades de definição. Isso porque a atividade envolve diversas áreas do conhecimento heterogêneas entre si.

Se por um lado ele possui um viés extremamente técnico e funcional, por isso sua ligação histórica com a engenharia, por outro possui um compromisso inquestionável com a construção da cidade e sua função social.

Dentro desse enorme recorte engloba-se a arquitetura do edifício, o urbanismo, a filosofia, a sociologia, o pensamento político, a poética e por ai vai.

Ou seja, quanto mais avança a sociedade mais complexas vão se tornando as relações presentes na profissão. A cidade apresenta necessidades cada vez mais específicas do ponto de vista funcional, que por sua vez possuem origens e problemas de ordem muito maior.

Nesse sentido coloco a seguinte questão: Como encaixar arquitetura enquanto atividade didática? Mais especificamente, como uma escola de arquitetura pode ensinar a projetar?

A frase anterior já possui contradição em relação ao começo do texto. A atividade de projeto é por si só, apenas um campo do processo de pensamento arquitetônico.

Faz-se a seguinte hipótese: uma disciplina da Faculdade de Arquitetura propõe como intervenção um edifício de habitação na região central de São Paulo.

Essa afirmação não possui nenhum erro, aliás, é muito comum este fato nas escolas de arquitetura. No entanto, pensando no exercício proposto não é possível deixar de perceber um equívoco na maneira como se coloca a arquitetura enquanto aprendizado: um recorte arbitrário da realidade, um exercício de formulação do ‘programa’ habitar.

“(…)os programas são hipóteses extraídas de instantes de tempo congelados. E esse tempo congelado no qual o programa se fundamenta é uma abstração. Subtrai-se de uma situação empírica a maior parte das transformações ou mutações a que ela está sujeita. Pensa-se com muita objetividade, mas há apenas tênues resquícios do objeto nesses raciocínios. O objeto real em que o projeto incide – seja a situação de um indivíduo, seja a de um grupo ou de uma cidade inteira – não persiste como era no instante do congelamento. Nesse sentido, o programa também é uma hipóstase, uma ficção ou abstração falsamente considerada real.” Kapp, Silke. Armadilhas. Algumas palavras sobre o concurso para a sede do Grupo Corpo. Publicado no Portal Vitruvius. 2002.

Dados esses fatos e a definição acima podemos considerar o exercício de projeto leviano. Isso, pois as bases que servem ao momento do projeto são insustentáveis.

Pegando o exemplo dado. Quais os critérios para a escolha do terreno? O proprietário não construiu ou usou o lote por quais motivos? Qual o interesse da cidade ou do governo nesse investimento? Qual o uso ideal para tal espaço?

E esses questionamentos só se multiplicam.

Apesar disso, esse tipo de exercício continua sendo aplicado todos os anos nas escolas de arquitetura perdurando o semestre todo. Um culto à alienação.

A atividade do arquiteto não se limita somente a escolha de uma estrutura aliada a uma forma que se encaixa num terreno aliado a uma topografia.

Os entraves sociais, o conhecimento da cidade, a noção urbanística, o entendimento político da situação atual, o conhecimento dos melhores materiais a serem utilizados (nesse sentido entende-se melhores como os mais adequados ao objeto estabelecido), são alguns poucos elementos do conhecimento anteriores ao processo de projeto.

Anteriores porque determinam limites a definição do programa.

O ato de projetar precisa ser estudado profundamente, a fim de evitar equívocos primários na construção coletiva da cidade. Enquanto os fatores determinantes da sociedade e da vida cotidiana forem deixados de lado, só pode-se esperar que a profissão do arquiteto seja também ignorada.

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existência decrépita

A morte é velada na sociedade. Hoje toda a noção sobre o que significa a morte, suas implicâncias e pré-requisitos (!) são ignoradas dentro da cultura.

Michael Jackson morreu. No entanto, nunca nos últimos tempos suas músicas foram tão tocadas, seu nome tão citado e sua vida tão comentada.

Esqueceram do fato que ele morreu, deixou filhos, dívidas e toda uma conturbada trajetória.

Ele faz parte da construção cultural daquilo que denominamos ‘astro’, uma ‘estrela’, isso tem implicações sérias. A construção de sua imagem, sua figura se baseia num preciso método de sedução.

A imagem de Michael Jackson sempre vai estar vinculada ao sucesso, o Rei do Pop. Essa monarquia representa toda uma possibilidade de vida que está além da concepção humana: consumo ilimitado, produção sempre visível, criação de universos particulares.

Nessa concepção individualista de vida, a celebridade é tudo aquilo de sobre-humano. O capital, a noção de dinheiro é a noção da possibilidade de vida e todas suas implicações positivas e ao mesmo tempo absolutamente subjetivas: amor, felicidade, plenitude.

A vida plena está calcada nessa imagem de sucesso, e consumo absoluto. De certa forma a fama de Michael conseguiu comprar sua morte, eternizando-o em seu trabalho e afastando os escândalos e a trágica trajetória de sua história.

A possibilidade de se identificar com a imagem significa, conseguir enxergar nela as questões próprias a sua experiência. Essas questões não estão de forma alguma ligadas com a realidade.

Podemos ver em todas as celebridades a repetição histórica de barbaridades comportamentais: violência domestica (Madonna e Sean Penn, Rihana e Chris Brown), alcoolismo, dependência química (Michael Jackson, Amy Winehouse), problemas psiquiátricos profundos (Michael Douglas, Susan Boyle), etc.

Em oposição a noção de identidade, tem-se a indiferença, a omissão.

Se encontramos na celebridade o fetiche desejoso a uma existência, é na cidade que existe seu oposto.

Segregação social, abismos econômicos, má distribuição de renda são retratos do sistema. Fatos reais que caracterizam sua existência. Isso implica que alguém vai sucumbir sob essas falhas.

No caso das cidades esses indivíduos são os mendigos. Sujeitos privados da vida em sociedade, marginais. São fantasmas de existência vagando pela cidade com uma única possibilidade: sobrevivência.

São inúmeras as razões para a aceitação da vida em mendicância. Seja um drama familiar, problemas psicológicos, mentais, ou a conseqüência pura e simples da impossibilidade de inserção no mercado.

A questão é que se na celebridade encontramos tudo aquilo que se é desejoso enquanto existência, colocado de maneira absurda e caricata sob um sujeito normal e na maior parte das vezes dotado de defeitos profundos, no mendigo vê-se a negação de todos esses valores.

Permanece sempre um impasse na colaboração com o mendigo, é correto dar 1 real para o sujeito? O dinheiro possui a subjetividade suficiente para aliviar a culpa.

A própria condição de sua existência vai além de uma falha no sistema ou na organização da sociedade. É um aspecto cultural.

O mendigo é a negação da existência, uma vida sob o espectro constante da morte. Não a toa que esses sujeitos são também (como as celebridades) detentores de defeitos profundos. A bebida serve para dopar a sensibilidade, as drogas para amenizar a dor, a rua para manter o fluxo, a calçada para segurar o corpo, a marquise para cobrir da chuva, e por ai se constrói toda uma outra existência, deturpando os valores dessas ações. É a estética da morte, talvez uma anti-estética.

O mendigo está fadado apenas a morte. Não por uma condição de incapacidade de sociabilidade ou por qualquer fator congênito. Mas porque a sociedade decidiu por sua morte. Enxergar a mendicância como algo fora da humanidade ou da cidade, é tomar como posição que ela não existe e por conseqüência concordar que ela precisa ser eliminiada, exterminada: a construção coletiva de um genocídio em cotidiana manutenção.

Dessa forma vê-se um paradoxo. De um lado a imagem da existência para a sociedade hoje se baseia numa cultura do consumo onde nada é suficiente, e por isso mesmo utópica. E de outro não existe a possibilidade da falha, a morte como existência é ignorada como algo que não existe, mas que a cidade e as pessoas que vivem sob essa condição reafirmam cotidianamente.

Desejar uma existência digna e as transformações para ela, só são possíveis com a noção de certos aspectos: saber ver na própria condição as implicações de uma existência outra.

A compaixão necessita de resgate. E custa mais que 1 real.

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mitos paulistas

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“A ‘arquitetura moderna brasileira’ tinha autores e teses definidas. E a tal ‘arquitetura paulista’, onde está, quem são seus autores, quem traduziu seu ideário? Seria a preferência por um material (concreto armado)?”1

Neste texto de 1988, o professor Júlio Katinsky questiona o termo ‘arquitetura paulista’. Em 2005, numa entrevista publicada pelo portal Vitruvius, afirma:

“E eu critiquei esta expressão “arquitetura paulista”, isso não existe! E a Lina não me aceitou! Eu acho que arquitetura paulista é um eufemismo, porque os caras não tinham coragem de confessar que eram discípulos de Artigas! O Artigas sempre foi perseguido por ser comunista etc. Então… não vai falar arquitetura paulista.”

Nesse sentido presenciamos um entrave ideológico.

Toda uma geração de arquitetos formados a partir da década de 60 em São Paulo afirma o legado da formação pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, criada em 1948 e reformada institucionalmente em 1962 com a construção do prédio na cidade universitária.

No entanto, através das palavras de Katinsky, observamos uma falha de desenvolvimento do termo. A arquitetura moderna brasileira tinha questões próprias e uma base sólida para seus discursos. Tão sólidas que culminam na construção de Brasília, a materialização de todos os preceitos políticos, sociais, filosóficos, mas principalmente arquitetônicos deste movimento.

Artigas transformou-se num mito para toda uma classe de profissionais no Brasil e especificamente em São Paulo, que tratando-se de cidade é uma das mais globais: apresenta todos os piores problemas que um habitat pode oferecer.

Essa leitura histórica permite reconhecer uma grave falha na arquitetura brasileira, e no caso paulista. Mas identifica-se pior erro no que diz respeito a evolução de sua escola: suas teses não se desenvolveram.

A inserção política do arquiteto paulista qual é? Construir casas? Construir escolas? Construir infra-estrutura?

Nas entrelinhas destas questões vê-se o desejo sempre presente deste profissional: construir cidades.

Se esse, que é o maior dos entraves do século XX, não for abordado de forma comprometida, só podemos esperar a homogeneização de soluções e o afastamento de questões pertinentes ao desenvolvimento da sociedade.

Essa posição perigosa permite a reprodução de toda uma estrutura depreciativa: o neoliberalismo tão bem representado por nossas políticas de governo, com palavras de ordem na privatização, redução do Estado e repressão.

O arquiteto possui em sua prática questões pertinentes ao desenvolvimento humano da sociedade.

Isso é irrefutável, podemos comprovar em Brasília ou na figura de Artigas. Mas enquanto ambos forem mitos e não conhecimentos assimilados, só nos resta aguardar o avanço destrutivo da política conservadora enquanto assistimos a derrocada do caráter humanista da profissão.

1 KATINSKY, Julio Roberto. “Arquitetura paulista: uma perigosa montagem ideológica”. AU – Arquitetura e Urbanismo, nº 17. São Paulo, 1988, p. 66-71.

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estética paulista

O amplo uso de jargões e frases prontas nos ajudam a camuflar e tapar alguns buracos conceituais de discurso. No ensino esses jargões têm um poder doutrinário, funcionam como palavras de comando para a ação.

O repertório se torna ênfase da pesquisa, a forma o centro da produção e a omissão a opção política.

O que me leva ao termo amplamente usado: estética.

Num primeiro momento, a palavra se submete apenas a um impulso formal com respaldo nos cabeleireiros e manicures da cidade, esses sim tem preocupações estéticas (assim como toda a classe média provinciana).

Em entrevista cedida ao portal BaseNow, o arquiteto Márcio Kogan fala:

BASENOW: Como você equilibra o estilo de vida e desejos dos seus clientes com sua estética e voz como arquiteto?

MK: Obviamente, no momento que a obra da casa acaba, ela está no começo de sua vida. Durante o tempo em que houver moradores ela estará sempre em construção. O espaço interno das casas determina muito da vida das pessoas porém a vida anima esta casa é o que realmente vai fazer dela um lugar especial.

Sou a favor de uma arquitetura minimalista mas sou contra uma casa minimalista. Os moradores tem que sempre colocar sua história lá dentro.

A arquiteta Lina Bo Bardi falava que a arquitetura deveria sempre comportar uma cristaleira vinda de herança da avó.

Agora em entrevista ao portal ARCOWEB:

ARCOWEB: Fale sobre essa relação da proporção com o cinema.

MK: Penso no elemento forte do cinema, o widescreen. Vejo a arquitetura um pouco através dessa lente, muito mais alongada horizontalmente. É assim que trabalho. Desde o mobiliário até os espaços interno e externo, todos os elementos acabam obedecendo um pouco a essa regra.

Esses trechos deixam bem claro a opção estética do arquiteto. Apesar da não compreensão em absoluto do termo, cruzando essas informações chegamos a uma clara intenção.

Por trás do discurso de uma arquitetura limpa e passível de apropriação, existe o embrião formal de visualidade baseado no cinema e numa escala de proporções pré-determinadas (wide-screen).

Ao conferir os projetos recentes do arquiteto, pode-se notar claramente esses fatos. Dado isso, sua proximidade com o discurso moderno vem de uma necessidade muito mais formal de acabamento da obra e utilização precisa de materiais, do que propriamente um compromisso com a estrutura.

Para Márcio Kogan o desafio em construir se dá na criação de espaços amplos, pés-direitos altíssimos, lajes com vãos de grandes dimensões e diversas transições estruturais para sustentar esses volumes em direções diferentes (sem ferir os planos com grandes vigas ou pilares fora de lugar).

Existe aqui uma estética que preza pelo uso de materiais precisos e refinados (sem dúvida com referências diretas em Mies Van Der Rohe), usa a estrutura submetida para criar espaços amplos e inflar os espaços sociais (o grande discurso da arquitetura moderna enquanto construção da residência burguesa), e utiliza todas essas soluções para a criação de uma imagem minimalista, invertendo o caráter do trabalho envolvido na construção (os amplos espaços, os cubos brancos, as salas amplas, são programas sem uso ou vínculo real com proposta de mudança do estilo de vida, mas um discurso preciso que se aperfeiçoa a cada nova casa na criação e manutenção dessa imagem desvinculada da vida).

Ou seja, suas casas possuem uma dimensão estética muito bem definida. Não propõem qualquer mudança enquanto programa ou crítica ao estilo de vida, ao contrário. São máquinas perfeitas, relógios suíços da construção civil, feitas para funcionar sempre brilhando.

Meu ponto é: qual arquiteto que não está preso a este mesmo projeto estético hoje?

Márcio Kogan tem um domínio absoluto de sua prática. A estrutura, a forma e os acabamentos são usados de maneira maestral. No entanto isso está vinculado a uma cidade estéril de casas fortificadas e sem perspectiva de futuro, programa esse mesmo tão criticado e ironizado pelo arquiteto nas exposições realizadas com Isay Weinfeld (Arquitetura e Humor).

Apesar de tudo ele enxerga suas contradições e coloca claramente.

De qual outro arquiteto contemporâneo na cidade de São Paulo podemos falar tão claramente de contradições?

Mas principalmente, qual arquiteto hoje pensa a cidade e suas contradições e se organiza a partir disso?

Temos muitos profissionais que constroem casas. Mas qual cidade que estão construindo? A cidade é também um projeto estético, e por seu caráter coletivo, o mais complexo dentre todos.

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contemporâneo ultrapassado

print screen do dicionário uol-michaelis

print screen do dicionário uol-michaelis

Repertório, índice, prontuário, almanaque, coleção, lista: coletivo. Essas são as palavras que estão balizando a produção contemporânea da arquitetura paulista.

O livro Coletivo, 36 projetos de arquitetura paulista contemporânea publicado em 2006 (Cosac Naify), marca junto com uma exposição no centro universitário Maria Antônia (em mesma data) a produção dos arquitetos formados entre 1986 e 1996 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Sob esse prisma, qual a proposta estética por trás dessa prática colocada pelos profissionais e professores hoje?

O repertório é somente o processo de acúmulo de conhecimento, um entesouramento de projetos, soluções técnicas. Isso resulta numa somatória de soluções formais, que deveriam balizar o processo criativo de projeto.

Nesse caso, a polêmica histórica sobre o desenho nem chega a ser encontrada. Todo o processo de produção da arquitetura em  momento anterior ao desenho, de discussão, crítica e reformulação (que deveria se fazer dialético por isso mesmo), na verdade acontece de maneira limitada.

Afinal de contas, o processo de projeto deve estar ligado ao compromisso do sujeito com a realidade, que lhe fornece dados e informações, a sociedade e a política, que são partes intrínsecas da produção em qualquer esfera de atuação. Não o contrário, onde os próprios projetos cercados dentro de sua restrita área de abrangência pontuam as possibilidades futuras.

Ou seja, esses 36 projetos apresentados estão fadados a um fator limitante muito definido: são os retratos de uma incapacidade de proposição. Retratos do limite imposto à profissão hoje. Uma discussão formal, de caráter saudosista dentro de um didatismo justificado apenas pela presença na universidade de tais atores.

Citando um trecho da apresentação do livro sobre a questão da identidade:

“São questões da natureza disciplinar da arquitetura e de sua correspondente dimensão crítica, das quais não se abre mão. Se por um lado, o processo de projeto mantém-se repleto de operações que se repetem ao longo dos anos, confirmando sua resistência disciplinar, por outro, é o seu próprio fazer sucessivo que antecipa um futuro que se deseja melhor. A verdade é que se abrem novos horizontes de reflexão, comparações e debates. É evidente o interesse em estreitar os elos entre reflexão e prática projetual”

(Coletivo. Cosac Naify, 2006. pg. 15)

Esse fazer sucessivo que antecipa um futuro que se deseja melhor só pode ser feito dentro de um fazer ideológico que seja omisso. A produção em qualquer área hoje só pode ser feita a partir de embates, confrontos. Afinal de contas as relações estão cada vez mais complexas, envolvendo cada dia mais agentes.

Para terminar cito um trecho do livro Arquitetura nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões (Editora 34, 2002 – esgotado). Esse trecho é o final do parecer de Roberto Schwartz à Pedro Arantes (pg. 232), autor do livro que na ocasião apresentava seu TFG (Trabalho Final de Graduação):

“A diversidade, o peso e a incongruência atroz dos fatores que o debate dos arquitetos ambiciona harmonizar, naturalmente sem conseguir, são algo único. É o campo talvez em que a discussão estética de nosso tempo encontra, ou poderia encontrar, a sua expressão mais densa e propícia.”

Uma leitura, no mínimo mais clara e promissora do papel real do arquiteto hoje.

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cotidianidade e contradição

fotografia tirada de cima de um prédio na Radial Leste.

A importância com fatos políticos e a necessidade de coerência em processos e ações se têm feito necessários cada vez mais. Diante de uma cidade que funciona sob contradições, beirando o desastre, todo pensamento que visa um projeto diferente desse aparente caos não parece ser possível.

Ao contrário, os discursos em direção de uma mudança de postura são vistos como inocentes.

A militância e o engajamento político têm boa parte de sua presença marcada a partir da década de 40, com o surgimento das universidades no Brasil, o desenvolvimento econômico e um esforço coletivo na construção de uma burguesia nacional.

Hoje, depois do país democratizado e neoliberalizado é difícil imaginar um projeto político possível.

Essa dificuldade vem de uma impossibilidade em pensar o coletivo a partir de estruturas privadas. Toda e qualquer forma de organização tem se feito através de relações privadas. Seja na produção da arquitetura, na estruturação de um negócio como uma padaria ou no sistema de projetos de uma prefeitura.

Ou seja, todo e qualquer projeto para ser pensado como coletivo passa pela esfera privada. O que me leva a crer que o engajamento político, não está mais presente numa estrutura externa ao indivíduo, num estado ou numa organização.

Voltando ao argumento que introduzi, o engajamento é visto como inocência justamente porque toda e qualquer maneira de se colocar na cidade hoje é uma posição política.

Vou citar o começo da entrevista ao professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Alexandre Delijaicov à revista Tijolo:

A escola pública é um projeto. É como a cidade: o pessoal que está no primeiro ano da FAU pode estar dizendo: “está tudo um caos”. Não é um caos, é uma situação muito bem desenhada. Não é desenhada como um indivíduo que está desenhando, mas existe na verdade uma armação de circunstâncias.

Cada indivíduo, mesmo sem querer, e sem saber, está a fazer o seu papel pra essa situação do caos.

O engajamento não é mais uma opção, é um fato. Contribuir para um projeto tornou-se parte da vida cotidiana. Viver na cidade é assumir sua contradição.

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início

gravura feita com maneira negra, água forte e buril

gravura feita com maneira negra, água forte e buril

Começo esse blog pensando em colocar de maneira mais cotidiana a produção de textos e imagens.

De início posto uma gravura em metal que fiz no começo do ano, durante curso no Museu Lasar Segal, como um primeiro produto fruto de reflexão teórica e experimentação prática.

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teatro cacilda becker

teatro cacilda becker

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